EUA usaram IA Claude em operações militares contra Irã e Venezuela
O Comando Central dos Estados Unidos no Oriente Médio (Centcom) utilizou o modelo de inteligência artificial Claude, da empresa Anthropic, em operações militares recentes, incluindo a ofensiva contra o Irã no último sábado (28) e a captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em fevereiro. A revelação, feita pelo jornal The Wall Street Journal e confirmada por Axios e Reuters, expõe a integração profunda de IA generativa em operações de guerra cibernética e convencional, ao mesmo tempo em que acende um intenso debate ético e regulatório sobre os limites desse uso.
O papel da IA no teatro de operações
De acordo com as reportagens, o Centcom integrou o Claude em seus fluxos de trabalho para realizar avaliações de inteligência, identificar alvos e simular cenários de batalha. Apesar da confirmação do uso, o comando militar se recusou a detalhar como exatamente o assistente de IA foi empregado no ataque ao Irã. A operação também contou com a parceria do Pentágono com a empresa de análise de dados Palantir Technologies.
Conflito ético entre o governo e a Anthropic
A revelação ocorre em meio a uma batalha pública entre o governo dos EUA e a Anthropic. O presidente Donald Trump ordenou, na sexta-feira (27), que órgãos federais cessassem imediatamente o uso de programas da empresa, acusando-a de colocar "vidas americanas em risco" e a "segurança nacional sob ameaça". O cerne do conflito é a recusa da Anthropic em permitir o uso irrestrito de seus modelos pelo Departamento de Guerra (Pentágono).
A empresa mantém um contrato de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) com o Pentágono desde 2025, mas estabeleceu limites éticos claros: seus sistemas não podem ser usados para vigilância em massa de cidadãos ou em sistemas de armamento autônomos letais. Em comunicado na quinta-feira (26), a empresa foi enfática:
"Essas ameaças não mudam nossa posição: não podemos, em consciência, atender à sua solicitação" de uso irrestrito.
Implicações para o futuro da guerra e da segurança cibernética
O diretor-executivo da Anthropic, Dario Amodei, argumentou que os sistemas de IA de ponta ainda não são confiáveis o suficiente para operar armas letais sem supervisão humana final. No entanto, o uso do Claude em operações reais de alto impacto sinaliza uma aceleração na militarização da IA generativa. Para especialistas em cibersegurança, isso levanta questões urgentes:
- Vulnerabilidades de Supply Chain: A dependência de modelos de IA de empresas privadas cria um novo vetor de risco. Um comprometimento ou uma falha crítica no modelo Claude poderia impactar diretamente operações militares.
- Guerra de Desinformação em Escala: A capacidade de gerar análises, simulações e possivelmente conteúdo operacional em alta velocidade pode alterar o ritmo e a natureza dos conflitos.
- Risco de Escalada Automatizada: Embora a Anthropic proíba armas autônomas, a pressão por mais automação em cenários de alta tensão é um campo minado ético e estratégico.
Contexto mais amplo de ciberataques
Paralelamente ao uso ofensivo da IA, o general Paul Caine, comandante do U.S. Cyber Command, confirmou que a unidade conduziu ataques cibernéticos contra sistemas de comunicação e sensores iranianos, preparando o terreno para a campanha de bombardeio conjunta com Israel. Essa ação combinada—ataques cibernéticos para cegar e desorganizar, seguidos por bombardeios físicos e uso de IA para planejamento—ilustra a doutrina de guerra multidomínio integrada que as grandes potências estão adotando.
O que falta saber e os próximos passos
A reportagem não detalha os mecanismos técnicos de como o Claude foi integrado aos sistemas militares, nem quais salvaguardas técnicas estão em vigor para prevenir uso indevido ou "alucinações" do modelo em contextos críticos. A tensão entre a Anthropic e o governo dos EUA deve se intensificar, com possíveis ramificações para outros contratos governamentais com empresas de IA. Para a comunidade de segurança, este caso serve como um estudo seminal sobre os riscos operacionais, éticos e de segurança quando modelos de IA de uso geral são implantados em ambientes de conflito.