Os roubos e furtos de celulares no Brasil evoluíram de crimes contra o patrimônio para portas de entrada ao universo digital das vítimas. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que, apenas em 2024, foram 917.748 aparelhos subtraídos no país, com uma mudança preocupante na motivação dos criminosos.
A nova economia do crime
Segundo Leonardo Silva, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), houve uma mudança fundamental no foco da criminalidade. "Se antes o valor agregado ao celular era de maior interesse para a revenda ilegal, agora o acesso aos dados da pessoa tem mais 'valor' no crime", explica o especialista.
Esta transformação se reflete nas táticas empregadas: em furtos, os criminosos tentam manter o aparelho desbloqueado, enquanto nos roubos a abordagem tem sido mais violenta, frequentemente com uso de armas de fogo para coagir as vítimas a entregarem senhas de desbloqueio e de aplicativos bancários.
"Você vai concentrando ali no celular uma série de dados pessoais que muitas vezes você não fala para as pessoas, mas deposita no seu celular e menciona eles por mensagem. Isso gera um conjunto de oportunidades para quadrilhas", afirma Leonardo Silva.
O destino dos aparelhos roubados
Os celulares subtraídos seguem caminhos complexos na economia ilegal. Após o roubo, os produtos ganham "aparência de legalidade" através de notas fiscais fraudulentas e são revendidos em plataformas de comércio online. Outra rota significativa é a exportação para países da África e Ásia, onde o Brasil não possui acordos de cooperação para compartilhamento de dados de bloqueio, permitindo que os aparelhos continuem funcionando normalmente.
Iniciativas de combate e recuperação
Programas como o "Protege Celular" do Governo do Piauí surgiram como cases de sucesso no combate a este tipo de crime. Lançado em 2020, o aplicativo permite que usuários cadastrem o IMEI de seus aparelhos, facilitando a localização pela polícia em caso de furto ou roubo. Esta iniciativa inspirou o programa federal "Celular Seguro", lançado três anos depois.
Para o pesquisador do FBSP, o mérito destes sistemas está no "desmonte de uma parte importante do problema, que é a destinação e receptação de celulares roubados, e na localização e devolução ao dono legítimo".
Medidas de proteção digital
Marcos Antonio Simplicio Junior, professor e pesquisador da Poli-USP, alerta que os cuidados com segurança física devem se estender ao digital. A principal medida, segundo ele, é a conscientização do usuário em adotar práticas que dificultam a ação criminosa:
- Evitar repetir senhas e deixá-las anotadas no aparelho: utilizar gerenciadores de senhas com uma senha mestra forte, preferencialmente com criptografia
- Esconder aplicativos de banco: existem aplicativos específicos que permitem ocultar e bloquear apps críticos com senha adicional
- Utilizar o Celular Seguro: ferramentas que permitem bloqueio rápido e remoto do aparelho são fundamentais
- Ativar autenticação em dois fatores: em todos os serviços críticos, especialmente bancários
- Manter backups regulares: tanto de dados pessoais quanto de configurações importantes
Panorama estatístico atual
Os números de 2024 representaram uma queda de 13,4% em relação ao ano anterior, mas ainda mantêm o Brasil em patamares alarmantes. Em São Paulo, apenas na capital, a Secretaria de Segurança Pública registrou mais de 154 mil aparelhos roubados ou furtados entre janeiro e dezembro de 2025.
Períodos como o Carnaval acentuam a preocupação, exigindo que usuários redobrem os cuidados não apenas com a posse física do dispositivo, mas principalmente com a proteção dos dados nele armazenados.
A evolução do crime digital exige uma abordagem igualmente evolutiva por parte das autoridades e dos próprios usuários, que devem tratar a segurança de seus dispositivos móveis com a mesma seriedade dedicada à segurança de suas residências e informações financeiras.