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Dados estratégicos impulsionam soberania digital como política de estado

Governo federal consolida soberania digital como política de Estado com foco em dados, operação e tecnologia. Serpro lidera Nuvem de Governo e valida IA para segurança crítica.

Contexto e estratégia governamental

O governo federal brasileiro consolidou a soberania digital como uma política de Estado, estabelecendo uma infraestrutura baseada em três pilares fundamentais: soberania dos dados, soberania operacional e soberania tecnológica. A iniciativa, debatida durante a masterclass "Estratégia para criação de uma nuvem soberana brasileira" no Web Summit Rio 2026, visa garantir que informações estratégicas, serviços essenciais e plataformas críticas permaneçam sob governança brasileira, sem abrir mão da inovação e da colaboração com o mercado.

Para o secretário de Governo Digital do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), Rogério Mascarenhas, a transformação digital do Estado depende diretamente da capacidade de organizar, integrar e qualificar os dados públicos. Segundo ele, o país vive um momento decisivo de preparação para o uso cada vez mais intensivo da inteligência artificial na gestão pública. "Não existe inteligência artificial sem catalogar melhor esses dados, tratar esses dados, trabalhar a qualidade desses dados e quebrar os silos de informação", afirmou.

A Nuvem de Governo e a governança de dados

A chamada Nuvem de Governo surge como elemento central dessa arquitetura, funcionando como um ambiente de referência para informações estratégicas e serviços críticos da administração pública. O modelo considera diferentes níveis de criticidade e sensibilidade das informações. Dados ultrassecretos, classificados ou protegidos por sigilo exigem ambientes com níveis mais elevados de controle e proteção, enquanto informações públicas podem utilizar outros modelos de infraestrutura, sempre sob regras definidas pelo Estado.

Mascarenhas ressaltou que o fortalecimento dessa estratégia passa também pelo processo de repatriação de dados e pela ampliação da infraestrutura pública nacional. "O Serpro hoje tem um processo importante de desenvolvimento da chamada Nuvem de Governo. Existe uma tarefa importante de repatriar os dados e o Serpro tem feito investimentos importantíssimos para ampliar a capacidade de armazenamento. A guarda desses dados e sua operação precisam estar em uma empresa pública como o Serpro, que tem mais de 60 anos de experiência e capacidade para operar essas informações com segurança", afirmou.

Soberania operacional e tecnológica

Para o presidente do Serpro, Wilton Mota, a discussão não pode ficar restrita ao armazenamento de dados. Segundo ele, a soberania digital exige que o país tenha condições de administrar sua própria infraestrutura, realizar atualizações, proteger sistemas e garantir a continuidade dos serviços públicos. "A soberania não vem só por uma questão de modismo. Ela nasce da necessidade de proteger aquilo que é estratégico para o Estado. Hoje temos centros de dados em Brasília, São Paulo e uma sala cofre no Rio de Janeiro e estamos ampliando nossa capacidade para que o Brasil tenha condições de operar seus sistemas críticos com segurança, disponibilidade e resiliência", afirmou.

Mota destacou que essa capacidade já está presente em algumas das operações mais importantes do governo federal. "Toda a operação da Receita Federal roda sobre plataformas administradas por nós. Somos responsáveis pela gestão, pelas atualizações, pela segurança e pela continuidade desses serviços. Isso é soberania na prática: ter capacidade técnica para operar aquilo que é essencial para o Estado brasileiro", disse.

O desafio da inteligência artificial

Além dos dados e da infraestrutura, o presidente do Serpro defendeu a ampliação da capacidade nacional de desenvolver, validar e evoluir tecnologias críticas. Na avaliação dele, a inteligência artificial está acelerando a produção de softwares e componentes tecnológicos em uma velocidade que exige novos mecanismos de controle e validação. "Não basta discutir apenas a soberania dos dados. Precisamos discutir também a soberania do software. Mesmo no mundo do código aberto, estamos vendo uma velocidade de atualização sem precedentes. Precisamos criar capacidade para validar essas tecnologias, testar atualizações e garantir que elas não tragam riscos para aplicações críticas do governo", afirmou.

Para enfrentar esse desafio, o Serpro trabalha na criação de um laboratório voltado à validação tecnológica e à cooperação com universidades e centros de pesquisa. "Não dá mais para pensar tecnologia de forma isolada. Precisamos trabalhar junto com a academia, com o mercado e com os centros de pesquisa. É assim que vamos fortalecer soluções nacionais e criar competências que o país precisa para o futuro", destacou.

Implicações para a segurança da informação

A construção dessa agenda envolve uma articulação entre governo, empresas públicas, universidades e setor produtivo. O presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Olavo Noleto, destacou que a discussão sobre soberania digital também impacta diretamente a competitividade da indústria brasileira. "Como pensar a indústria brasileira sem segurança sobre os seus dados? Como garantir competitividade se não sabemos exatamente onde essas informações estão armazenadas, como são processadas e quem tem acesso a elas?", questionou.

Para os CISOs e gestores de segurança, a política de soberania digital impõe novos requisitos de conformidade e governança. A necessidade de validação de tecnologias de código aberto e a operação de sistemas críticos em infraestrutura nacional exigem atualizações nos processos de avaliação de riscos e na gestão de fornecedores. A autonomia sem isolamento defendida pelos participantes da masterclass sugere que a interoperabilidade com tecnologias globais deve ser mantida, mas com poder de decisão soberano sobre a escolha e o consumo de produtos.

O que os CISOs devem fazer agora

  • Avaliar a criticidade dos dados da organização em relação às novas diretrizes de soberania.
  • Revisar contratos de nuvem e infraestrutura para garantir conformidade com políticas de repatriação de dados.
  • Implementar processos de validação de software e atualizações para mitigar riscos de cadeia de suprimentos.
  • Fortalecer a governança de dados para suportar o uso estratégico de inteligência artificial no setor público e privado.

Conclusão

O Brasil não pode ficar à margem desse tema. Nós produzimos muitos dados e o Estado brasileiro tem uma riqueza em suas mãos. Dados de importação, exportação, arrecadação, identidade digital, mobilidade e prestação de serviços públicos representam um patrimônio estratégico para o país. Esses dados precisam ser protegidos, mas também utilizados para fomentar inovação, fortalecer a pesquisa, desenvolver tecnologia e criar oportunidades para que o Brasil avance com autonomia. Por isso, a soberania digital precisa ser tratada como uma política de Estado voltada ao desenvolvimento do país", concluiu Wilton Mota.


Baseado em publicação original de TI Inside
Publicado pela Redação Hack Alerta com base em fontes externas citadas e monitoramento editorial do Hack Alerta. Para decisões técnicas, operacionais ou jurídicas, confirme sempre os detalhes na fonte original.