Uma extensão do Chrome, amplamente instalada e listada na loja oficial, está coletando silenciosamente todas as interações de usuários com plataformas de inteligência artificial, incluindo ChatGPT, Claude, Gemini e Microsoft Copilot. A extensão, identificada como "Prompt Optimizer – SecondBrain" (ID: aajjgdpofhhcjmjoombjdfepplndhgcp), viola flagrantemente sua própria política de privacidade, que afirma não coletar dados pessoais.
Descoberta e escopo da ameaça
A extensão, que conta com aproximadamente 100.000 instalações, opera de forma autônoma e maliciosa. Assim que carregada, seu worker de fundo força o consentimento do usuário para "agreed" (concordado), ativa a coleta de dados e desativa a proteção, independentemente das escolhas reais do usuário. Um ouvinte de fundo no evento tabs.onUpdated opera sem filtros de URL, garantindo que qualquer visita a uma página web acione a extensão para buscar um arquivo de configuração remoto atualizado a cada 60 segundos.
O mecanismo de captura reside em um arquivo chamado chatgpt_context_fetch_diagnostics.js, nome que sugere erroneamente uma função de diagnóstico. Na realidade, o script substitui funções críticas de rede do navegador, como window.fetch, XMLHttpRequest.open, XMLHttpRequest.send e o construtor WebSocket. Isso permite interceptar o tráfego antes que ele alcance os serviços de IA legítimos.
Vetor de ataque e exfiltração de dados
Além da interceptação de tráfego de rede, a extensão utiliza três observadores de mutação (MutationObservers) distintos para raspar diretamente as respostas dos assistentes das páginas renderizadas. Em plataformas como o Meta AI, keyloggers capturam as entradas dos usuários antes mesmo do envio da mensagem. O risco é particularmente severo para ambientes corporativos que utilizam o Microsoft Copilot hospedado no Microsoft 365, pois a extensão é capaz de analisar quadros do protocolo SignalR para extrair prompts e respostas do bot.
Os dados capturados são agrupados, compactados e criptografados com AES-GCM antes de serem transmitidos para o servidor ingest.secondbrain.is/context. Uma análise forense revelou que a chave de criptografia é emitida diretamente pelos servidores do SecondBrain, e não gerada localmente pelo navegador. Isso significa que o provedor da extensão possui a capacidade de descriptografar e ler todas as conversas exfiltradas, incluindo dados confidenciais de empresas, planos estratégicos e informações pessoais.
Impacto e implicações para a segurança corporativa
A descoberta expõe uma falha crítica na governança de ferramentas de IA não autorizadas (Shadow AI). Organizações que permitem o uso de extensões de navegador sem uma política de bloqueio rigorosa estão permitindo a fuga de dados sensíveis para servidores externos. A extensão não apenas viola a privacidade do usuário, mas também compromete a segurança da informação corporativa, expondo a empresa a riscos de vazamento de dados e não conformidade com regulamentações como a LGPD.
O comportamento da extensão contradiz frontalmente sua política de privacidade na Chrome Web Store, que declara zero coleta de dados. O único controle visível, um botão flutuante, é cosmético e não desativa a coleta de dados, que ocorre em segundo plano de forma ininterrupta.
Medidas de mitigação recomendadas
Equipes de segurança e administradores de TI devem adotar as seguintes medidas imediatas para mitigar a ameaça:
- Implementar listas de bloqueio de extensões: Bloquear a instalação da extensão ID
aajjgdpofhhcjmjoombjdfepplndhgcputilizando as políticasExtensionInstallBlocklistno Google Chrome e Microsoft Edge. - Auditar tráfego de rede: Monitorar logs de rede para conexões de saída para os domínios
ingest.secondbrain.iseoptimize.secondbrain.is, que são os destinos controlados pelo servidor. - Revisar políticas de uso de IA: Organizações que utilizam o Microsoft 365 Copilot devem tratar essa extensão como uma ameaça ativa de exfiltração de dados e não como um problema de privacidade menor.
O que os CISOs devem fazer agora
A gestão de riscos em ambientes de IA requer uma abordagem proativa. É essencial mapear quais ferramentas de IA estão sendo utilizadas informalmente pelas equipes e criar um inventário vivo que classifique as soluções de IA com base em sua finalidade e tipo de dados tratados. A governança algorítmica não deve ser deixada para o improviso, mas integrada à rotina de segurança da informação para blindar a empresa contra incidentes de vazamento de dados.