Contexto do mercado
A ideia de que a inteligência artificial vai roubar o seu trabalho nunca pareceu tão próxima da realidade no Brasil. Empregadores têm usado ferramentas como ChatGPT e Gemini para realizar tarefas antes delegadas a profissionais, como escrever, traduzir e criar imagens. Um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), junto com o Instituto Nacional de Pesquisa da Polônia (NASK), divulgado em maio de 2025, mostrou que um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à transformação pela IA generativa.
Para entender o impacto prático, o g1 conversou com freelancers de diferentes áreas que têm sentido profundamente os efeitos dessas transformações. Os relatos indicam uma mudança drástica na demanda e na remuneração por serviços criativos e técnicos.
Testemunhos e perdas
Mariana Del Nero, criadora de conteúdo freelancer de 38 anos, perdeu um trabalho de uma cliente que atendia há mais de uma década para uma IA. O "job" era escrever um convite para um evento corporativo. Ela conta que avisou que poderia fazer o texto cerca de meia hora depois que o pedido foi feito, mas a contratante enviou um texto pronto em poucos minutos.
"Percebi na hora que tinham feito com IA", afirma Mariana. "Foi aí que eu entendi que, para tarefas simples, as IAs já estavam me substituindo". Depois do episódio, ela passou a utilizar com mais frequência plataformas como o ChatGPT no dia a dia. Segundo ela, o uso dessas ferramentas reduziu drasticamente o tempo de execução das tarefas, mas não significou aumento de rendimento, pois a demanda por trabalhos pontuais diminuiu.
Cássio Menezes, designer gráfico de 35 anos, ouviu de um cliente em outubro de 2025: "Por que você tá cobrando esse valor se eu posso ir no ChatGPT e fazer?". O contratante desistiu do serviço. Cássio estava cobrando R$ 1,6 mil para criar toda a identidade visual de uma marca, valor que já representava uma redução significativa em relação aos R$ 3 mil que cobrava há três anos.
"Com essa tecnologia, as pessoas acham que o nosso trabalho é fácil e desvalorizam. Pensam que é só colocar um prompt e pronto. Agora, mesmo com os valores reduzidos, ainda tem gente reclamando", afirma Cássio. Ele sente que quanto mais investir na sua carreira, menos clientes vai ter, porque eles querem pagar cada vez menos.
Adaptação e futuro
Maria Fernanda, tradutora de 34 anos, conta que desde o início de 2024 sentiu uma mudança grande nas ofertas de trabalho. "Hoje, a maior parte das ofertas de trabalho é para revisão de textos traduzidos pela IA", diz. Segundo ela, a remuneração por esse trabalho é menor do que a tradução completa de um texto, mas isso não impactou o seu faturamento, porque o tempo de trabalho de revisão é menor.
Para se manter relevante nesse cenário, a dica é valorizar e investir nos aspectos criativos e exclusivos do trabalho, segundo a professora Luciana Morilas, especialista em trabalho da FEA-USP. "A criatividade não é previsível por algoritmos, é algo da natureza humana. A máquina jamais vai ser criativa", diz.
Além disso, Luciana destaca que é importante não "demonizar" a IA e aprender a implementá-la no dia a dia para não "ficar para trás" no mercado. "Existem muitas ferramentas de IA que o profissional pode e deve usar a seu favor, seja para transcrever áudios, organizar cronogramas, entre outras atividades simples", afirma.