Os gestores de riscos de instituições financeiras estão cada vez mais atentos à convergência entre tecnologia e segurança. Um estudo global realizado pela EY em parceria com o Institute of International Finance (IIF) revelou que 71% dos entrevistados consideram que a tecnologia e a cibersegurança representarão o foco principal da supervisão bancária nos próximos três anos. Essa percepção coloca a segurança da informação no topo da agenda regulatória, superando riscos tradicionais como crime financeiro e fraudes digitais, que ocupam a segunda e terceira posições com 36% das respostas cada.
Estudo global aponta cibersegurança como prioridade
A pesquisa, que contou com a participação de 101 bancos de 31 países, incluindo 10% das maiores instituições financeiras globais (G-SIBs), demonstra uma mudança de paradigma na gestão de riscos. Rui Cabral, sócio-líder de risco e finanças para o setor financeiro da EY Brasil, destaca que, embora os riscos de crime financeiro estejam em evidência devido à inclusão de facções criminosas brasileiras na lista de organizações terroristas pelos EUA, a supervisão regulatória está migrando para a infraestrutura tecnológica.
Quando questionados sobre os principais impactos da evolução da regulação global no gerenciamento de riscos, 63% dos executivos apontaram o aumento do escrutínio em tecnologia e inteligência artificial. Isso reflete a intensificação da agenda regulatória, onde a capacidade das instituições de proteger seus dados e sistemas se tornou um critério de conformidade tão crítico quanto a solvência financeira.
Habilidades para responder a esse cenário
Para enfrentar esse novo ambiente, os CROs (Chief Risk Officers) identificaram as competências necessárias para os próximos três anos. O domínio do ecossistema digital, englobando tecnologia, dados, IA e programação, liderou com 71% das respostas. Isso indica que a gestão de riscos não pode mais ser dissociada da compreensão técnica das ferramentas que sustentam o negócio.
Andreia Graça, sócia-líder de inteligência artificial e dados da EY Brasil, observa que há uma valorização de profissionais com competências essenciais como pensamento crítico e visão de negócios, capazes de atuar em funções híbridas de governança. A ênfase nessas habilidades reflete a natureza dinâmica do setor bancário, onde a inovação deve caminhar lado a lado com a segurança.
Preocupação com terceiras partes e Open Finance
Um ponto crítico levantado no estudo é a segurança das terceiras partes. Rui Cabral afirma que há uma preocupação crescente com as empresas que se relacionam com os bancos por meio da integração de sistemas, comum em inovações como Open Finance e Pix. A segurança dos sistemas e as medidas de governança precisam ser observadas em todo o ecossistema, seguindo as regras definidas pelo Banco Central.
O objetivo é assegurar o bom funcionamento do sistema financeiro, garantindo que a cadeia de suprimentos de tecnologia não se torne um vetor de ataque. O fortalecimento da governança e dos frameworks de controle, citado por 34% dos respondentes, é essencial para mitigar riscos de fornecedores e parceiros de negócio.
Implicações para o mercado brasileiro
Para o Brasil, onde o Pix e o Open Finance são pilares da inclusão financeira, a supervisão focada em tecnologia e cibersegurança é particularmente relevante. O Banco Central do Brasil já tem demonstrado preocupação com a resiliência operacional e a segurança das integrações entre instituições. A tendência é que as exigências regulatórias se tornem mais rigorosas, exigindo que os bancos não apenas protejam seus sistemas internos, mas também garantam a segurança de toda a rede de parceiros.
A conformidade com a LGPD e as normas de segurança cibernética do BCB serão fundamentais para evitar sanções e manter a confiança do mercado. A gestão de riscos, portanto, deve evoluir para uma abordagem mais integrada, onde a segurança da informação é tratada como um componente estratégico do negócio, e não apenas como uma função de suporte técnico.