Uma investigação da BBC revelou uma rede internacional de homens que gravam mulheres sem consentimento durante saídas noturnas e monetizam o conteúdo em plataformas como YouTube, TikTok, Facebook e Instagram. Os vídeos, frequentemente descritos como "caminhadas" ou "conteúdo de vida noturna", acumularam mais de três bilhões de visualizações nos últimos três anos, gerando receitas multimilionárias para seus criadores.
O escopo da operação e a metodologia
A investigação identificou mais de 65 canais dedicados a esse tipo de conteúdo, com operações concentradas em cidades como Manchester (Reino Unido), Londres, Oslo, Miami e Bangkok. A BBC conseguiu rastrear e expor alguns dos operadores mais prolíficos, vinculados a 12 contas online. Entre eles estão um motorista de táxi local e dois irmãos suecos que viajaram especificamente para filmar no Reino Unido. A reportagem realizou trabalho de campo secreto durante um fim de semana de Halloween em Manchester, documentando a ação dos indivíduos.
O modus operandi e o impacto nas vítimas
Os vídeos são gravados de forma oculta, muitas vezes com câmeras posicionadas na altura da cintura ou em ângulos baixos, focando quase exclusivamente em mulheres usando vestidos ou saias. As imagens frequentemente capturam momentos íntimos, como quando as mulheres ajustam suas roupas. A BBC localizou quase 50 mulheres filmadas, muitas das quais desconheciam completamente que haviam sido gravadas e tiveram suas imagens visualizadas milhões de vezes. As vítimas relataram sentimentos de medo, humilhação e paranoia, com algumas alterando permanentemente seus comportamentos sociais.
"Não saio mais porque tenho medo. Isso não é normal. Não deveria ter acontecido", disse Sophie, uma jovem de 18 anos cuja imagem foi publicada sem seu conhecimento.
A "zona cinza" legal e a resposta das plataformas
No Reino Unido, filmar em espaços públicos geralmente não é crime, mas especialistas apontam que essa prática pode infringir leis de assédio e voyeurismo, situando-se em uma "zona cinza" legislativa. A polícia de Manchester chegou a deter um homem sob suspeita de assédio e perseguição em 2024, mas recentemente anunciou que não tomaria novas medidas contra um suspeito devido às "limitações da legislação vigente", buscando agora "vias civis" para abordar o problema. Após o contato da BBC, o YouTube desativou duas contas vinculadas a um dos principais operadores, e o TikTok removeu quatro canais. No entanto, muitos vídeos e canais permanecem ativos, especialmente no Facebook e Instagram, administrados pela Meta.
O modelo de negócio e a escala do fenômeno
Segundo Annabelle Gawer, diretora do Centro de Economia Digital da Universidade de Surrey, as filmagens podem gerar "receitas multimilionárias", com um vídeo de um milhão de visualizações rendendo até US$ 6,8 mil (cerca de R$ 35,3 mil). Os canais mais populares acumulam centenas de milhões de visualizações e centenas de milhares de assinantes. Um dos operadores identificados, Florjan Reka, tem seu canal registrado como uma empresa na Suécia, declarando realizar "atividades de influenciadores, marketing e publicidade".
Repercussão e o desafio contínuo
A ministra do Interior do Reino Unido, Shabana Mahmood, declarou que seu governo "não irá tolerar o uso de novas tecnologias para gerar mais violência e assédio contra mulheres e meninas". No entanto, as vítimas expressam ceticismo sobre a eficácia das remoções pontuais. "Ele tem o vídeo onde apareço no seu telefone ou no seu computador. O que o impede de compartilhar novamente? Provavelmente, não há como detê-lo", lamentou Grace, uma das mulheres filmadas. O caso evidencia um ecossistema digital lucrativo construído sobre a violação de privacidade e o assédio, com respostas legais e das plataformas ainda insuficientes para coibi-lo.