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Setor financeiro mantém exposição a riscos cibernéticos devido a modelos defasados

Análise revela que setor financeiro brasileiro mantém exposição a riscos devido a modelos defasados e falhas de governança, com 69% das invasões em vulnerabilidades conhecidas.

Contexto e contradição do setor

O avanço dos ataques cibernéticos no setor financeiro não é apenas consequência da transformação digital, é, sobretudo, resultado de uma contradição com a qual o setor convive: instituições financeiras operam infraestruturas cada vez mais integradas, distribuídas e orientadas a dados, frequentemente sustentadas por arquiteturas legadas e modelos de segurança concebidos para contextos menos interconectados e menos críticos.

O problema, portanto, não está apenas no aumento da superfície de ataque, mas na incapacidade estrutural de lidar com ela. Na prática, muitas organizações ainda tratam segurança como um conjunto de ferramentas isoladas, e não como uma estratégia integrada de negócio. Equipes que não se comunicam, processos desconectados e baixa visibilidade sobre o ambiente criam um cenário em que a identificação de ameaças ocorre de forma tardia ou contingencial, cenário incompatível com o nível de criticidade, previsibilidade e controle esperado do setor financeiro.

Esta análise, baseada em dados recentes e relatórios de inteligência de ameaças, destaca que a tecnologia por si só não resolve um problema que é, antes de tudo, de mentalidade. Enquanto a segurança não for tratada como pilar estrutural da operação, o setor permanecerá exposto, independentemente do volume de investimento, refletindo uma fragilidade institucional e de governança.

Estatísticas e evidências de vulnerabilidade

Segundo relatório da Armis Labs, essa ampliação dos pontos vulneráveis, ou seja, todos os caminhos possíveis de acesso a um sistema, tem sido impulsionada pela integração entre sistemas essenciais, pelo uso intenso de conexões entre aplicações e pela dependência de ambientes conectados. Com isso, há mais portas de entrada para ataques, o que exige uma mudança na forma como a segurança é estruturada.

De acordo com esse estudo, cerca de 69% das invasões têm origem em vulnerabilidades já conhecidas e não corrigidas. Ou seja, não estamos falando de ameaças impossíveis de prever, mas de problemas que persistem por falhas em processos de priorização, governança de correções e execução de planos de tratamento de risco. Em um setor que investe bilhões em tecnologia, esse dado revela um desalinhamento preocupante entre discurso e prática.

Essa área ainda atua de forma predominantemente reativa, abordagem que amplia não apenas o risco individual das instituições, mas também o risco sistêmico em ambientes interdependentes. Modelos baseados exclusivamente em resposta a incidentes não são mais suficientes, e, em muitos casos, nunca foram. Continuar apostando nessa lógica é aceitar que o ataque aconteça para então agir.

O fator humano e cultura organizacional

Um ponto que ainda recebe pouca atenção nessa discussão é o fator humano por trás dessas decisões. Não se trata apenas de tecnologia ou orçamento, mas de cultura organizacional e, principalmente, de como a liderança enxerga risco. Em muitas instituições, segurança ainda é percebida como custo ou entrave à inovação, quando, na prática, deveria ser tratada como elemento de sustentação do próprio crescimento digital.

Sem esse alinhamento no topo, iniciativas acabam pulverizadas, prioridades se perdem e a execução fica comprometida. A segurança da informação deve ser uma responsabilidade compartilhada, desde a diretoria até as equipes operacionais. A falta de conscientização e treinamento contínuo dos colaboradores é um dos vetores mais explorados por atacantes, especialmente em campanhas de phishing e engenharia social.

A mudança necessária é mais profunda do que a adoção de novas ferramentas. Ela passa por incorporar segurança desde a concepção dos sistemas, integrar desenvolvimento e operação e tratar risco cibernético como uma variável estratégica, não apenas técnica. Isso exige uma mudança de paradigma na governança corporativa, onde o CISO deve ter assento na mesa de decisões estratégicas.

Regulação e conformidade no Brasil

Nesse contexto, práticas como testes contínuos, validações automatizadas e observabilidade representam meios tecnicamente adequados para suportar o atendimento às expectativas regulatórias de monitoramento contínuo, conforme as abordagens modernas de supervisão baseadas em risco adotadas por BACEN e CVM. A inteligência artificial também ganha relevância, não como solução isolada, mas como mecanismo de escala para identificar padrões, antecipar falhas e reduzir o tempo de resposta.

As instituições financeiras brasileiras estão sujeitas a regulamentações rigorosas que exigem a proteção de dados e a continuidade dos serviços. O descumprimento dessas normas pode resultar em sanções administrativas, multas e danos reputacionais severos. A conformidade com a LGPD é um aspecto crítico, especialmente considerando a sensibilidade dos dados financeiros e a necessidade de garantir a privacidade dos clientes.

A supervisão baseada em risco exige que as instituições demonstrem não apenas a existência de controles, mas a eficácia desses controles em tempo real. Isso implica na adoção de métricas de segurança que reflitam o estado real da postura de segurança, permitindo a tomada de decisões informadas pela alta administração.

Recomendações para CISOs e executivos

Para mitigar esses riscos, é essencial que os CISOs e executivos adotem uma abordagem proativa e integrada. Isso inclui a implementação de programas de segurança baseados em risco, que priorizam a proteção dos ativos mais críticos e sensíveis. A adoção de frameworks de segurança reconhecidos, como NIST ou ISO 27001, pode fornecer uma base sólida para a gestão de riscos.

A integração entre segurança e operações (DevSecOps) é fundamental para garantir que a segurança seja incorporada em todo o ciclo de vida do desenvolvimento de software. Isso reduz a superfície de ataque e permite a detecção e correção de vulnerabilidades antes que sejam exploradas em produção. A automação de processos de segurança também é crucial para lidar com a escala e complexidade dos ambientes modernos.

Além disso, é necessário investir em treinamento e conscientização contínua dos colaboradores. A segurança da informação é uma responsabilidade de todos na organização, e a cultura de segurança deve ser promovida desde o topo. A liderança deve demonstrar compromisso com a segurança, alocando recursos adequados e apoiando iniciativas de melhoria contínua.

Implicações para a confiança do ecossistema

Enquanto a segurança não for tratada como pilar estrutural da operação, o setor permanecerá exposto, independentemente do volume de investimento, refletindo uma fragilidade institucional e de governança. Em um ambiente tão regulado e sensível, essa fragilidade não compromete apenas sistemas, mas a confiança de todo o ecossistema financeiro.

A questão, portanto, não é se os ataques vão evoluir. Eles vão. O verdadeiro desafio não é técnico, mas estrutural: abandonar práticas antigas e assumir a segurança como responsabilidade institucional. A confiança dos clientes e parceiros é o ativo mais valioso do setor financeiro, e a segurança é a base que sustenta essa confiança.

A adoção de tecnologias emergentes, como blockchain e inteligência artificial, deve ser acompanhada de uma avaliação rigorosa de riscos. A inovação não deve vir à custa da segurança, mas sim ser impulsionada por ela. As instituições que conseguirem equilibrar inovação e segurança estarão melhor posicionadas para enfrentar os desafios do futuro.

O que fazer agora

As instituições financeiras devem realizar uma auditoria completa de sua postura de segurança, identificando lacunas e priorizando ações de mitigação. A revisão de políticas e procedimentos de segurança é essencial para garantir que estejam alinhadas com as melhores práticas e regulamentações vigentes.

A colaboração com outras instituições e órgãos reguladores é fundamental para compartilhar informações sobre ameaças e melhores práticas. A comunidade de segurança deve trabalhar em conjunto para fortalecer a defesa coletiva contra ataques cibernéticos. A transparência e a comunicação aberta são chaves para construir confiança e resiliência.

Por fim, é necessário investir em capacitação e desenvolvimento de talentos. A escassez de profissionais qualificados em segurança da informação é um desafio significativo, e as instituições devem buscar formas de atrair e reter talentos, oferecendo oportunidades de crescimento e aprendizado contínuo.

Perguntas frequentes

Qual é a principal causa de vulnerabilidades no setor financeiro?
A principal causa é a dependência de arquiteturas legadas e a falta de integração entre segurança e operações, resultando em falhas de governança e priorização.

Como a LGPD impacta a segurança financeira?
A LGPD exige a proteção rigorosa de dados pessoais, o que aumenta a responsabilidade das instituições financeiras em implementar controles de segurança adequados e notificar incidentes.

Qual o papel da inteligência artificial na segurança?
A IA pode ajudar a identificar padrões de ameaças e automatizar respostas, mas não substitui a necessidade de uma estratégia de segurança humana e estruturada.


Baseado em publicação original de TiInside
Publicado pela Redação Hack Alerta com base em fontes externas citadas e monitoramento editorial do Hack Alerta. Para decisões técnicas, operacionais ou jurídicas, confirme sempre os detalhes na fonte original.